Documento interno do Banco Central enviado ao Tribunal de Contas da União revela que, em 2024, ex-presidente da autoridade monetária teria atuado para evitar liquidação do banco de Daniel Vorcaro, mesmo diante de sinais de crise

Um relatório interno do Banco Central do Brasil (BC), enviado ao Tribunal de Contas da União (TCU), indica que a gestão de Roberto Campos Neto teria atuado para evitar a intervenção ou a liquidação do Banco Master em pelo menos duas ocasiões ao longo de 2024, apesar de a instituição financeira já apresentar sinais claros de problemas de liquidez e incapacidade de honrar obrigações, segundo informações publicadas por Revista Fórum.

De acordo com o relatório, alertas sobre a situação do banco controlado por Daniel Vorcaro foram registrados em diversos momentos daquele ano. Ainda assim, decisões administrativas acabaram por contornar medidas mais drásticas de supervisão, o que teria adiado uma ação regulatória mais rígida.

Alertas ignorados e atuação do BC

O Banco Master vinha enfrentando uma crise de liquidez já conhecida pelos técnicos do Banco Central. Relatórios internos citados no documento enviado ao TCU mostrariam que, em meados de 2024, o banco não conseguia demonstrar caixa suficiente para honrar compromissos e dependia de operações questionáveis para manter atividades. Ainda assim, na avaliação de críticos à condução da autoridade monetária, o BC teria optado por “soluções particulares” e evitado medidas de intervenção que poderiam ter antecipado uma resolução mais rápida da crise.

Especialistas e analistas políticos que comentam o caso sugerem que essa postura pode ter contribuído para prolongar os problemas do Master e ampliar os riscos ao sistema financeiro, elevando a eventual perda para o Fundo Garantidor de Créditos (FGC) — que, após a liquidação judicial de novembro de 2025, foi acionado em valores estimados em bilhões de reais.

Crise e desfecho

O Banco Master, que passou por forte expansão nos anos anteriores mediante emissão de títulos rentáveis e captação de recursos, foi liquidado extrajudicialmente em novembro de 2025 pelo Banco Central após sequência de irregularidades e falhas de liquidez constatadas pelas autoridades. A decisão foi seguida pela prisão de Vorcaro pela Polícia Federal no mesmo período, no contexto das investigações que ficaram conhecidas como Operação Compliance Zero.

O desfecho envolveu ainda estimativas de desembolso por parte do FGC em valores históricos, com implicações diretas para investidores e para a confiança no sistema bancário.

Debate público e institucional

A reportagem sobre o relatório interno do BC reacende debates sobre a atuação da autoridade monetária diante de crises bancárias e o equilíbrio entre autonomia regulatória e responsabilidade na tomada de decisões que podem afetar toda a economia. Enquanto defensores da atuação do Banco Central defendem a necessidade de cautela e análise técnica, críticos afirmam que atrasos no uso de instrumentos de intervenção podem agravar desequilíbrios e aumentar o custo final da resolução.

Até o momento, porta-vozes do Banco Central ou de ex-diretores da autoridade monetária não se manifestaram oficialmente sobre as alegações contidas no relatório mencionado.

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