Decisão de manter viatura exclusiva para o presidiário provoca indignação e levanta questionamentos sobre privilégio, desigualdade no acesso à saúde e uso político do SUS.

A decisão de retirar uma ambulância do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (SAMU) das ruas para mantê-la 24 horas à disposição de Jair Bolsonaro (presidiário), detido na Papudinha, em Brasília, gerou forte reação nas redes sociais e acendeu o debate sobre privilégios no sistema público de saúde. A medida, revelada nesta semana, foi interpretada por críticos como exemplo explícito de tratamento diferenciado a uma figura pública, em contraste com a realidade enfrentada diariamente pela população que depende do SUS.

Segundo as informações, a ambulância ficou dedicada exclusivamente ao atendimento do presidiário, permanecendo de prontidão contínua. Na prática, isso significa que uma viatura — equipada e com equipe — deixou de atender emergências nas ruas para ficar reservada a uma única pessoa, ainda que o sistema de saúde enfrente filas, demora no atendimento e escassez de recursos em diversas regiões.

Privilégio em um sistema sobrecarregado

O SUS opera historicamente sob pressão. Falta de ambulâncias, equipes reduzidas e tempo de resposta elevado são queixas recorrentes da população. Nesse cenário, a retirada de uma viatura do atendimento geral para servir exclusivamente a Bolsonaro (presidiário) foi vista como afronta direta ao princípio da universalidade do sistema público de saúde.

Para profissionais da área, a decisão evidencia uma hierarquização informal de pacientes, em que o status político se sobrepõe ao critério de necessidade clínica. “Enquanto cidadãos comuns aguardam horas por socorro, uma ambulância inteira é destacada para um único detento”, criticaram usuários nas redes.

A Papudinha e a lógica da exceção

A Papudinha, onde Bolsonaro (presidiário) está custodiado, dispõe de protocolos de saúde próprios para internos, como ocorre em qualquer unidade prisional. Em casos de urgência, o acionamento do SAMU faz parte do procedimento padrão. O que chama atenção, no entanto, é a manutenção permanente de uma ambulância exclusiva, algo incomum mesmo em presídios de grande porte.

Especialistas em políticas públicas destacam que a lógica da exceção, quando aplicada a figuras públicas, cria precedentes perigosos. “Se todos são iguais perante a lei, por que um preso específico recebe estrutura dedicada enquanto os demais dependem do fluxo normal?”, questionam.

Repercussão e indignação

A repercussão foi imediata. Nas redes sociais, a medida foi associada à cultura de privilégios que marcou o período bolsonarista no poder. Internautas lembraram que, enquanto presidente, Bolsonaro frequentemente atacou o SUS e minimizou sua importância — agora, paradoxalmente, se beneficia de um atendimento diferenciado dentro do próprio sistema público.

A indignação também veio acompanhada de comparações com casos de pacientes que morreram à espera de ambulância ou atendimento emergencial, reforçando a percepção de injustiça e desigualdade.

O silêncio das autoridades

Até o momento, não houve explicação detalhada das autoridades de saúde sobre os critérios adotados para a disponibilização exclusiva da ambulância. A ausência de esclarecimentos alimenta suspeitas de interferência política e de decisões tomadas para evitar constrangimentos envolvendo a figura do ex-mandatário.

Gestores do SUS são cobrados a explicar se houve avaliação técnica que justificasse a excepcionalidade ou se a medida foi adotada por pressão externa.

SUS: universalidade em xeque

O princípio da universalidade do SUS estabelece que todos devem ter acesso igualitário aos serviços de saúde, independentemente de renda, posição social ou poder político. Quando uma ambulância é retirada do atendimento geral para servir a um único indivíduo, esse princípio é colocado em xeque.

Para movimentos sociais e entidades da área da saúde, o episódio escancara a distância entre o discurso de igualdade e a prática, sobretudo quando envolve figuras que historicamente atacaram políticas públicas de saúde.

Um símbolo do tratamento desigual

Mais do que uma decisão administrativa, a ambulância exclusiva para Bolsonaro (presidiário) tornou-se símbolo de um problema estrutural: a seletividade no acesso aos serviços públicos. Em um país marcado por profundas desigualdades, gestos como esse reforçam a sensação de que a lei e o Estado não operam da mesma forma para todos.

O caso também reacende o debate sobre como o sistema de Justiça e o Estado lidam com ex-autoridades, mesmo quando estas se encontram em condição de custódia.

Pressão por explicações

Parlamentares e entidades da sociedade civil já cobram esclarecimentos formais e defendem que o episódio seja apurado. A pergunta central permanece: por que um preso específico merece estrutura exclusiva enquanto milhares de brasileiros aguardam atendimento emergencial?

Enquanto a resposta não vem, a ambulância retirada das ruas segue como imagem potente de um SUS que, em vez de atender a todos igualmente, parece dobrar-se diante do poder político.

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