Lula deve recusar convite de Trump para integrar “conselho da paz” e preservar autonomia diplomática
Presidente brasileiro avalia que iniciativa do ex-mandatário norte-americano carece de legitimidade internacional e pode servir a interesses eleitorais e geopolíticos dos EUA.

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva deve recusar o convite feito pelo ex-presidente dos Estados Unidos Donald Trump para integrar um chamado “conselho da paz”, iniciativa informal anunciada pelo republicano em meio à sua estratégia de reposicionamento político no cenário internacional.
De acordo com interlocutores do Palácio do Planalto, a avaliação predominante é de que a proposta carece de legitimidade institucional, não possui respaldo de organismos multilaterais reconhecidos e pode servir mais aos interesses eleitorais e geopolíticos de Trump do que a um esforço real de mediação de conflitos globais.
Diplomacia não se faz por improviso
A leitura no governo brasileiro é clara: processos de paz exigem institucionalidade, multilateralismo e credibilidade internacional, elementos ausentes na proposta apresentada pelo ex-mandatário norte-americano. A diplomacia brasileira, sob Lula, tem buscado retomar protagonismo com base no diálogo entre Estados, no fortalecimento da ONU e na articulação com países do Sul Global.
Aceitar um convite desse tipo poderia colocar o Brasil em uma posição ambígua, associando sua política externa a uma iniciativa personalista e sem reconhecimento formal, além de expor o país a disputas internas da política norte-americana.
Trump e o uso político da “paz”
O anúncio do “conselho da paz” faz parte da tentativa de Trump de reconstruir sua imagem internacional, apresentando-se como negociador e figura central em eventuais acordos globais. No entanto, analistas apontam que o histórico do ex-presidente é marcado por ações unilaterais, desprezo por organismos multilaterais e incentivo a conflitos, o que fragiliza qualquer pretensão de liderança pacificadora.
Nesse contexto, a eventual participação de Lula poderia ser explorada como chancela simbólica a um projeto sem bases concretas, algo incompatível com a estratégia diplomática adotada pelo Brasil desde o início do atual governo.
A linha do Itamaraty
O Itamaraty tem defendido que o Brasil atue em iniciativas de paz apenas quando elas estiverem ancoradas em fóruns reconhecidos, como a Organização das Nações Unidas, ou em mecanismos multilaterais amplamente legitimados. Essa postura se alinha à tradição da política externa brasileira, que privilegia soluções negociadas, respeito ao direito internacional e autonomia frente às grandes potências.
A recusa ao convite de Trump, portanto, não representa isolamento, mas coerência com uma visão de mundo que rejeita aventuras diplomáticas e iniciativas de fachada.
Brasil, BRICS e Sul Global
O governo Lula tem concentrado esforços na articulação com países do BRICS e do Sul Global, defendendo reformas na governança internacional e maior equilíbrio nas relações entre Norte e Sul. Nesse cenário, participar de um “conselho” informal liderado por uma figura controversa dos Estados Unidos poderia minar a credibilidade do Brasil junto a esses parceiros estratégicos.
Além disso, a iniciativa de Trump não dialoga com as propostas concretas defendidas pelo Brasil para a construção da paz, que passam por desenvolvimento, combate às desigualdades e fortalecimento das instituições multilaterais.
Uma recusa estratégica
Ao sinalizar que deve recusar o convite, Lula reafirma uma mensagem central de seu terceiro mandato: o Brasil voltou à cena internacional com independência, previsibilidade e compromisso com o multilateralismo. A decisão também reforça que o país não pretende ser instrumento de projetos pessoais ou eleitorais de lideranças estrangeiras.
Em um mundo marcado por tensões geopolíticas crescentes, a postura brasileira busca evitar armadilhas diplomáticas e preservar sua capacidade de atuar como ator confiável, respeitado e autônomo no cenário internacional.
