Ex-aliada do bolsonarismo afirma que projeto eleitoral de Flávio Bolsonaro agride o país e revela crise ética e política no campo conservador

A jurista e ex-deputada estadual Janaina Paschoal voltou ao centro do debate político ao classificar como “uma indecência” a eventual candidatura de Flávio Bolsonaro. A declaração, dura e direta, escancara o aprofundamento das fissuras internas no campo da direita e do bolsonarismo, que enfrenta crescente desgaste político e moral.

“Quem ama o país sabe que essa candidatura é uma indecência”, afirmou Janaina, em tom de indignação. A fala ganhou repercussão imediata por partir de alguém que, no passado recente, foi aliada estratégica do bolsonarismo e uma das principais figuras públicas a defender o impeachment de Dilma Rousseff. Agora, sua crítica evidencia uma ruptura que vai além de divergências pontuais e atinge o próprio núcleo do projeto político da família Bolsonaro.

Crítica que vem de dentro

A declaração de Janaina Paschoal tem peso simbólico justamente por não vir da esquerda ou de adversários históricos do bolsonarismo, mas de uma ex-aliada que ajudou a pavimentar o caminho político que permitiu a ascensão da extrema direita ao poder. Ao chamar a candidatura de Flávio de “indecente”, Janaina questiona não apenas um nome específico, mas a lógica de perpetuação familiar no poder.

Para analistas, a crítica revela um incômodo crescente, inclusive entre conservadores, com o que muitos veem como patrimonialismo político, no qual cargos e candidaturas passam a ser tratados como extensão de um projeto familiar, e não como expressão de um debate programático ou de interesse público.

O peso do sobrenome Bolsonaro

Flávio Bolsonaro carrega um histórico político marcado por controvérsias, investigações e desgaste público. Sua trajetória está profundamente associada ao capital político herdado do pai, Jair Bolsonaro (presidiário), cuja imagem sofreu erosão acelerada após a derrota eleitoral, os ataques às instituições e os desdobramentos judiciais posteriores.

Nesse contexto, a tentativa de projetar Flávio como liderança nacional é vista por críticos como insistência em um modelo esgotado. A fala de Janaina Paschoal traduz esse sentimento ao apontar que a candidatura não representa renovação, mas insistência em uma lógica que já demonstrou seus limites.

Racha na direita e crise de projeto

O episódio evidencia uma crise mais ampla na direita brasileira. Sem um projeto unificado e com lideranças disputando espaço, o campo conservador se fragmenta entre diferentes correntes: bolsonaristas fiéis, setores liberais desconfortáveis com o radicalismo e figuras que tentam se desvincular do legado do ex-presidente.

A crítica pública de Janaina aprofunda esse racha, ao legitimar, a partir de dentro, a narrativa de que o bolsonarismo se tornou um obstáculo à reconstrução política da direita. Para muitos, a insistência na família Bolsonaro impede qualquer tentativa de reorganização mais ampla do campo conservador.

Indignação seletiva?

Apesar da contundência da fala, críticos lembram que Janaina Paschoal foi protagonista ativa no processo que abriu caminho para o bolsonarismo. Sua indignação atual, portanto, é vista por alguns como tardia. Ainda assim, o fato de ela romper publicamente com a candidatura de Flávio tem impacto político real, pois enfraquece a narrativa de unidade e inevitabilidade do projeto bolsonarista.

Reação bolsonarista

Setores mais radicais do bolsonarismo reagiram com ataques à ex-deputada, acusando-a de traição e oportunismo. A reação confirma a dificuldade do movimento em lidar com dissidências internas, frequentemente tratadas como inimigos a serem neutralizados, e não como parte legítima do debate político.

Um sintoma de esgotamento

A declaração de Janaina Paschoal funciona como sintoma de um esgotamento político. Ao afirmar que a candidatura de Flávio Bolsonaro é uma indecência, ela traduz um sentimento que ultrapassa as fronteiras ideológicas e alcança parte da sociedade cansada de projetos personalistas e familiares.

Mais do que uma polêmica pontual, o episódio revela que o bolsonarismo enfrenta não apenas oposição externa, mas também um processo de implosão interna, no qual antigas alianças se desfazem e o discurso de moralidade entra em choque com a prática política.

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