‘Enxurrada’ de recursos do FGC alivia caixa do governo Lula, mas preocupa cenário de longo prazo
Pagamentos do Fundo Garantidor de Créditos aos investidores do Banco Master reforçam receita do governo, mas podem atrasar cortes de juros e trazer desafios estruturais para o sistema financeiro.

O início dos pagamentos pelo Fundo Garantidor de Créditos (FGC) a credores do Banco Master, que entrou em liquidação extrajudicial em novembro de 2025, trouxe um alívio imediato ao caixa do governo federal, segundo avaliação de economistas, mas também levantou preocupações sobre efeitos de longo prazo na política econômica e financeira do país. A matéria foi publicada nesta quarta-feira pela Gazeta do Povo.
O FGC está fazendo desembolsos significativos aos investidores que tinham aplicações garantidas — como certificados de depósito bancário (CDBs) dentro do limite de R$ 250 mil — como parte do processo de ressarcimento após a liquidação do banco controlado por Daniel Vorcaro. Esses pagamentos representam uma “enxurrada de dinheiro” que pode impulsionar a arrecadação e aliviar a trajetória próxima das contas públicas do governo de Luiz Inácio Lula da Silva (PT).
Alívio de curto prazo para as finanças públicas
Uma injeção de recursos desse tipo tende a se traduzir em maior arrecadação tributária no curto prazo, uma vez que os valores pagos pelos fundos aos credores circulam na economia e contribuem para receitas federais, o que é visto como positivo em meio a pressões fiscais que marcam o início do ano eleitoral de 2026.
Autoridades do governo também ressaltaram que esse fluxo de recursos pode suavizar alguns indicadores fiscais e dar maior espaço de manobra para ajustes orçamentários em áreas que enfrentam restrições. No entanto, economistas ouvidos pela imprensa alertam que esse efeito pode ser temporário, sem resolver desafios estruturais da economia brasileira, como a necessidade de ajustes de longo prazo nas contas públicas e na produtividade do setor público.
Riscos e efeitos sobre a política monetária
Um aspecto destacado por analistas é a possibilidade de a entrada desse volume de recursos atrasar a redução da taxa básica de juros (Selic), atualmente sob avaliação pelo Comitê de Política Monetária (Copom). A percepção de que há mais dinheiro circulando na economia e um possível aquecimento da demanda pode fazer o Banco Central postergar cortes de juros, com impacto sobre crédito, investimentos e consumo.
Além disso, a utilização de reservas do FGC para cobrir garantias acena para o esforço coletivo do setor bancário, que contribui para o fundo. Isso levanta questões sobre o equilíbrio da liquidez do próprio FGC e sobre como serão restabelecidos os níveis de capital do fundo nos próximos anos, para que ele esteja preparado para futuras crises ou liquidações de instituições financeiras.
Desdobramentos para o sistema financeiro
Especialistas também observam que a operação de ressarcimento pode ter efeitos indiretos no mercado de crédito, especialmente se parte dos recursos captar poupança e reduzir a demanda por títulos privados. Em paralelo, bancos associados ao fundo podem enfrentar necessidade de realocar capital para recompor a liquidez do FGC, o que pode influenciar estratégias de crédito e investimentos no setor bancário.
O cenário colocado pelo caso Banco Master representa um teste para a capacidade de gestão de riscos no sistema financeiro brasileiro, com implicações tanto para as contas públicas quanto para a condução da política monetária e a confiança dos investidores ao longo de 2026.
