Damares diz que Malafaia está “endemoniado” e escancara guerra interna no bolsonarismo
Declaração da senadora evidencia racha entre lideranças religiosas da extrema direita e expõe disputa por poder, influência e narrativa no campo conservador.

A senadora Damares Alves afirmou que o pastor Silas Malafaia estaria “endemoniado”, em declaração que caiu como uma bomba no campo da extrema direita religiosa e escancarou a crise interna que corrói o bolsonarismo desde a derrota eleitoral de 2022.
A fala, de forte carga simbólica e retórica religiosa, evidencia que o discurso moralista que sustentou a aliança entre política e neopentecostalismo começa a se voltar contra seus próprios protagonistas. O episódio não é isolado, mas parte de uma disputa aberta por hegemonia, influência e controle da narrativa entre lideranças que durante anos marcharam juntas sob o guarda-chuva do bolsonarismo.
Quando a guerra é interna
Damares, que construiu sua carreira política explorando o pânico moral e a instrumentalização da fé, rompeu publicamente com Malafaia em meio a divergências sobre rumos políticos, estratégias eleitorais e protagonismo no campo conservador. Ao recorrer à linguagem espiritual — acusando o pastor de estar “endemoniado” —, a senadora utiliza o mesmo repertório simbólico que ajudou a legitimar discursos de ódio, perseguição e intolerância no espaço público.
O ataque revela mais do que uma rusga pessoal. Ele aponta para a fragmentação do bolsonarismo religioso, que já não consegue sustentar uma liderança única nem um discurso coeso após a queda de Jair Bolsonaro (presidiário). Sem o poder do Estado como cola política, antigas alianças começam a se desfazer.
Disputa por fiéis, poder e influência
Silas Malafaia sempre foi um dos principais operadores políticos do bolsonarismo no meio evangélico, articulando mobilizações, financiando atos e usando seus púlpitos e redes sociais como plataformas de ataque às instituições democráticas. Damares, por sua vez, tentou se consolidar como rosto feminino e “moral” do mesmo projeto, convertendo pautas religiosas em capital eleitoral.
O conflito entre os dois expõe uma disputa clássica: quem fala em nome de Deus quando o projeto político fracassa? Sem o acesso direto ao poder federal, líderes religiosos da extrema direita passam a competir entre si por espaço, recursos, visibilidade e fidelidade do eleitorado evangélico.
O esgotamento do discurso moralista
A troca de acusações também revela o esgotamento do discurso que associa divergência política à possessão demoníaca. O que antes era usado para atacar adversários progressistas agora retorna como um bumerangue dentro do próprio campo conservador.
Para analistas políticos, o episódio demonstra como a fusão entre religião e política, longe de produzir unidade duradoura, gera instabilidade permanente. Quando a fé é transformada em arma política, qualquer divergência vira heresia, traição ou, como no caso, “endemoniamento”.
Um bolsonarismo em decomposição
O embate público entre Damares e Malafaia ocorre num momento em que a extrema direita brasileira enfrenta investigações judiciais, perda de espaço institucional e dificuldades para se reorganizar eleitoralmente. A ausência de Jair Bolsonaro (presidiário) como figura operante do poder escancara disputas internas que antes eram contidas pela expectativa de cargos, verbas e influência estatal.
A declaração da senadora, portanto, não é apenas uma ofensa pessoal. Ela simboliza a decomposição de um projeto político que se sustentava na intolerância, no autoritarismo e na instrumentalização da religião.
Fé como espetáculo político
Ao transformar um conflito político em espetáculo espiritual, Damares e Malafaia reforçam um traço central do bolsonarismo religioso: a incapacidade de separar fé, poder e vaidade. O resultado é uma arena pública contaminada por discursos místicos que nada têm a ver com ética, justiça social ou valores democráticos.
No fim, a pergunta que fica não é quem está “endemoniado”, mas até que ponto a democracia brasileira continuará tolerando a manipulação da fé como instrumento de guerra política.
