Fraudes com créditos de carbono ligados ao Banco Master expõem falta de regulação eficaz e ameaçam credibilidade de um dos pilares da estratégia ambiental e econômica do governo federal.

O escândalo do Banco Master, que virou alvo de investigações federais por supostas fraudes financeiras e uso de ativos sem lastro, teve reflexos diretos no mercado de créditos de carbono no Brasil, um componente central da política climática do governo Luiz Inácio Lula da Silva (PT). A crise expôs fragilidades na regulação e fiscalização do mercado de carbono, pondo em xeque as bases de uma aposta estratégica do governo para promover desenvolvimento sustentável e atrair investimentos ambientais.

A reportagem publicada pela Gazeta do Povo destaca que cerca de R$ 45 bilhões em estoques de créditos de carbono foram usados como ativos em fundos ligados ao Master e a empresas associadas ao esquema, apesar de esses créditos não terem certificação robusta ou lastro reconhecido internacionalmente. A utilização desses créditos inflou artificialmente os balanços de fundos e levanta dúvidas sobre a integridade do mercado brasileiro, que vinha sendo promovido pelo governo como um novo vetor de crescimento econômico alinhado às metas climáticas.

Mercado de carbono, política ambiental e fragilidades regulatórias

O mercado de carbono funciona como um instrumento para colocar preço nas reduções de emissões de gases de efeito estufa, permitindo que empresas que reduzem suas emissões vendam créditos para aquelas que emitem além do permitido — uma peça essencial para políticas de transição ecológica e compromisso com acordos internacionais de clima. No Brasil, a lei que criou o Sistema Brasileiro de Comércio de Emissões (SBCE), sancionada em 2024, visava justamente criar um ambiente regulado e seguro para esse tipo de operação.

No entanto, o caso do Master revelou que, antes da implementação plena desse sistema — com funcionamento completo previsto apenas para 2030 — créditos ambientais baseados em estimativas questionáveis de “estoques de carbono” circularam livremente, sem a necessária verificação rigorosa. Esses ativos, vinculados a áreas de terras públicas sem certificação climática válida, foram contabilizados em grandes volumes e incorporados em fundos de investimento, gerando suspeitas de manipulação e falta de controle.

Repercussões e questionamentos à política climática

A crise põe sob pressão o governo federal e órgãos reguladores, como a Comissão de Valores Mobiliários (CVM), que abriu inquérito administrativo para mapear o que foi feito em relação ao caso e possíveis falhas no controle do mercado de carbono. A necessidade de responsabilização de gestores, consultorias e outros agentes também foi destacada por autoridades da própria CVM.

Especialistas alertam que a fragilidade revelada pelo caso Master não afeta apenas a confiança institucional no mercado de carbono, mas pode comprometer o posicionamento do Brasil em negociações climáticas globais, como em fóruns multilaterais que enfatizam mecanismos de precificação de carbono e transição energética.

A situação torna mais desafiador o esforço do governo em consolidar o mercado de carbono como um ativo econômico legítimo. O episódio também pode desestimular investimentos privados no setor ambiental, justamente quando políticas como o Plano de Transformação Ecológica buscam combinar metas de sustentabilidade com crescimento econômico e inovação tecnológica no país.

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