Documentos entregues nos Estados Unidos revelam que o influenciador bolsonarista prestou serviços à rede social Gettr durante o auge da campanha de Jair Bolsonaro, em atuação que se insere em um esquema transnacional de desinformação

O influenciador bolsonarista Paulo Figueiredo informou oficialmente à Justiça dos Estados Unidos que trabalhou para a rede social Gettr entre agosto de 2021 e abril de 2022 — período marcado pelo lançamento e expansão da plataforma no Brasil e pela promoção intensa da campanha de Jair Bolsonaro (presidiário). A informação consta em documentos apresentados por sua empresa à corte americana no contexto de um processo relacionado à recuperação de valores recebidos de uma empresa acusada de fraude financeira.

Exploração do caso

De acordo com os documentos judiciais, a International Treasure Group (ITG) — empresa de Figueiredo registrada na Flórida — assinou contrato para prestar consultoria e assessoria à Gettr, plataforma que teve papel central na disseminação de desinformação sobre o sistema eleitoral brasileiro e deu espaço a perfis bolsonaristas banidos de outras redes sociais.

Os registros anexados ao processo detalham que o contrato envolvia, entre outras atividades, planejamento de estratégia de mídia, monitoramento de riscos políticos e contato com influenciadores alinhados ao bolsonarismo. A atuação se deu no momento em que a Gettr ganhava visibilidade no Brasil e servia como espaço privilegiado para discursos antidemocráticos e ataques às instituições brasileiras.

Conexões internacionais

A atuação de Figueiredo se insere em uma teia mais ampla de influência transnacional da extrema direita. A Gettr, lançada por ex-conselheiro do governo Donald Trump, tinha ligações com aliados do bolsonarismo e com figuras controversas dos círculos de ultradireita nos Estados Unidos. Em processos judiciais americanos, a plataforma e seus financiadores foram associados a esquemas de desinformação e a redes de poder político internacional.

O fato de Figueiredo ter apresentado à corte americana os contratos com a Gettr veio em meio a um processo nos Estados Unidos que busca recuperar cerca de US$ 140 mil (aproximadamente R$ 760 mil) que teriam sido transferidos por uma empresa ligada a um magnata condenado por crimes financeiros, e que patrocinou iniciativas da extrema direita americana e brasileira.

Repercussão no Brasil

As revelações ocorrem em um momento em que o influenciador também responde a procedimentos no Brasil. A Procuradoria-Geral da República (PGR) apresentou denúncia no Supremo Tribunal Federal (STF) contra Figueiredo por sua participação em esquemas de desinformação e lobby internacional contra autoridades brasileiras, incluindo o ministro Alexandre de Moraes.

O STF tem buscado intimar o influenciador nos Estados Unidos por meio de carta rogatória, um procedimento formal que envolve cooperação judicial entre países para que ele seja notificado sobre as acusações em território americano.

Impacto político e institucional

Especialistas e membros de órgãos democráticos apontam que esse tipo de relação entre operadores bolsonaristas e plataformas de desinformação como a Gettr é um exemplo do uso estratégico de ferramentas digitais e conexões internacionais para minar instituições e fortalecer narrativas antidemocráticas.

Para analistas críticos, a situação evidencia a necessidade de reforçar a regulação de plataformas que servem de veículos para a propaganda política internacional e a cooperação entre países na investigação de crimes que ameaçam a integridade dos processos democráticos.

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