Trump diz que preços da gasolina caem com entrada de petróleo venezuelano após sequestro de Maduro
Presidente dos EUA exalta suposta queda de preços de combustíveis em meio à tomada controversa de petróleo da Venezuela, aprofundando tensão geopolítica e económica.

O presidente Donald Trump afirmou em entrevista que os preços do petróleo estão caindo e que isso estaria refletindo em queda nos preços da gasolina nos Estados Unidos graças à entrada de petróleo venezuelano no mercado norte-americano. A declaração foi proferida em um contexto altamente controverso de intervenção geopolítica e controvérsia internacional após uma ação militar dos EUA que resultou na captura do presidente venezuelano Nicolás Maduro.
Segundo Trump, os EUA teriam obtido dezenas de milhões de barris de petróleo da Venezuela, impulsionando a oferta e forçando uma redução nas cotações internacionais, o que, em sua narrativa, estaria levando os preços da gasolina a ficarem abaixo de dois dólares por galão em alguns mercados.
Intervenção, petróleo e mercado
A afirmação de Trump ocorre em meio a uma escalada sem precedentes da presença americana na Venezuela. Após os eventos no início de janeiro de 2026, em que forças norte-americanas capturaram Maduro e assumiram o controlo de vários recursos petrolíferos, o governo dos EUA anunciou que planeja direcionar entre 30 e 50 milhões de barris de petróleo venezuelano para o mercado doméstico norte-americano. Esse movimento já foi associado à queda do preço do petróleo no mercado internacional, com contratos de referência como o Brent e o WTI apresentando recuos superiores a 1%, na medida em que expectativas de maior oferta global ganham força entre investidores.
Entretanto, analistas alertam que, apesar dessa possível influência de curto prazo sobre os preços de petróleo bruto, a ideia de que isso se converterá automaticamente em gasolina mais barata no varejo — como Trump sugere — é simplista e ignora fatores de mercado, logística e margens de refino que influenciam fortemente o preço na bomba. Segundo especialistas, o impacto real sobre os preços ao consumidor pode ser limitado, especialmente se a administração Trump continuar a priorizar interesses de grandes corporações petrolíferas.
Reações internacionais
A ação dos EUA e a captura de Maduro foram amplamente criticadas por governos e organizações internacionais, que classificaram o episódio como uma violação do direito internacional e um sequestro de um chefe de Estado soberano. Países aliados da Venezuela, assim como diversas lideranças progressistas na América Latina, denunciaram que os Estados Unidos estão instrumentalizando a força militar para controlar recursos naturais estratégicos e remodelar as cadeias de energia global em benefício próprio.
Esses críticos também expressaram preocupação de que a narrativa sobre o “benefício” da queda de preços de combustíveis seja usada para justificar a tomada de recursos estrangeiros sem consentimento, algo que remete a práticas neocoloniais no manejo de matérias-primas.
Geopolítica do petróleo
A Venezuela possui uma das maiores reservas de petróleo do mundo — estimadas em cerca de 303 bilhões de barris — mas sua produção tem sido historicamente prejudicada por sanções, subinvestimento e má gestão. Com a intervenção dos EUA, a lógica de mercado mudou abruptamente, abrindo espaço para que companhias e interesses externos se posicionem no controle de reservas que durante décadas estiveram sob gestão estatal venezuelana.
Enquanto isso, especialistas em política energética e clima lembram que mexer com petróleo de forma tão frontal não apenas perpetua a dependência global de combustíveis fósseis, como ignora os desafios climáticos que tornam urgentíssima a transição para energias renováveis. O Conselho de Relações Exteriores dos EUA, por exemplo, observa que as ações recentes fazem parte de uma estratégia mais ampla de priorização de combustíveis fósseis em detrimento de esforços climáticos reconhecidos internacionalmente, com potenciais repercussões de longo prazo para a crise climática.
A lógica imperial por trás da retórica
Críticos apontam ainda que a retórica de Trump sobre “preços mais baixos” funciona como mecanismo político para desviar a atenção das reais implicações da intervenção: a apropriação de recursos estratégicos de um país vizinho e o reposicionamento geopolítico dos EUA em uma das regiões mais sensíveis do globo. Ao transformar uma ação militar e uma tomada de recursos em narrativa de benefício econômico doméstico, administradores dos EUA buscam legitimar intervenções externas que têm profundas consequências para a soberania de nações latino-americanas e para a estabilidade regional.
